Introdução
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Em páginas anteriores foram vistos ciclos termodinâmicos usuais para fornecer trabalho (Otto, Diesel, Brayton). Uma característica comum das máquinas que operam com esses ciclos é o contato direto da combustão com o gás de operação (ar). Isso demanda o emprego de combustíveis nobres, no estado líquido ou gasoso, como gasolina, álcool, óleo diesel, querosene, gás natural.
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| Figura 01 |
Naturalmente, motores Otto, Diesel ou turbinas a gás não podem ser usados quando o calor é oriundo da queima de combustíveis sólidos ou residuais, como carvão, lenha, bagaço, óleo pesado, etc. Para esses casos, o vapor d'água é a alternativa padrão: o combustível é queimado numa caldeira que produz vapor que, por sua vez, produz trabalho utilizável.
Vapor é também utilizado no caso especial de a fonte de calor ser uma reação de fissão atômica, ou seja, em usinas nucleares.
A Figura 01 dá o esquema simplificado de uma instalação para produzir trabalho a partir do vapor: na maioria das vezes é usada uma máquina tipo turbina, acionada pelo vapor produzido pela caldeira (ou
gerador de vapor).
O
condensador é um trocador de calor. Na maioria dos casos práticos é usado um circuito separado de água com torre de resfriamento. Uma vez condensado o vapor, a água retorna para a caldeira através de uma bomba e o ciclo se completa.
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| Figura 02 |
Se a água (ou qualquer outro líquido) é evaporada ou condensada, o processo ocorre de forma isotérmica. A expansão em uma turbina ou a compressão em uma bomba são transformações aproximadamente adiabáticas.
Considerando essas transformações e a intenção da maior eficiência possível, poder-se-ia então imaginar um
ciclo de Carnot para o vapor.
No
diagrama temperatura x entropia do vapor d'água, um hipotético ciclo de Carnot seria algo parecido com o diagrama da Figura 02.
As etapas do ciclo seriam:
2–3: expansão isotérmica (calor da queima do combustível)
3–4: expansão adiabática (trabalho fornecido pela turbina)
4–1: compressão isotérmica (calor trocado no condensador)
1–2: compressão adiabática (trabalho fornecido à bomba)
Sejam as grandezas:
TQ = T2 = T3 (temperatura da fonte quente)
TF = T4 = T1 (temperatura da fonte fria)
Então, a eficiência seria calculada segundo fórmula já vista:
#A.1#
Entretanto, conforme já comentado em página anterior, o ciclo de Carnot é uma situação ideal. Processos reais não são isotérmicos ou adiabáticos perfeitos. O trecho da turbina (3–4) teria água e vapor, o que reduziria sua vida útil e eficiência mecânica. Seria também difícil uma bomba (trecho 1–2) para operar com água e vapor ao mesmo tempo. Devido a diferenças relativamente pequenas de temperatura na região de vapor saturado, a eficiência não seria das melhores.
Ciclo Rankine
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O diagrama da Figura 01 abaixo é a representação aproximada do ciclo Rankine simples.
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| Figura 01 |
A modificação básica em relação ao ciclo ideal de Carnot do tópico anterior é o deslocamento do final da condensação (ponto 1) para a linha de equilíbrio água / vapor.
Nessa hipótese, a bomba trabalha apenas com líquido, evitando os inconvenientes (ou impossibilidade prática) do trabalho com água e vapor. Entretanto, a turbina continua trabalhando com mistura de água e vapor, o que é sempre uma limitação prática.
Notar que o termo turbina refere-se à utilização mais comum. A máquina de vapor pode ser, por exemplo, do tipo alternativo, de cilindro e pistão.
Com máquina de cilindro e pistão, é o ciclo usado nas antigas locomotivas a vapor.
Exemplo 01 (fonte: prova Imparh 2007): Uma turbina a vapor opera em regime permanente e recebe um fluxo de 1 kg/s de vapor de água saturado a uma pressão de 30 bar, produzindo 304,2 kW de potência. Determine o título do vapor na saída da turbina para uma pressão de escape de 1 bar. Dados:
Pressão Entalpia da Água Entalpia da Água
Líquido Saturado Vapor Saturado
1 bar 500,00 kJ/kg 2700,0 kJ/kg
30 bar 1008,4 kJ/kg 2804,2 kJ/kg
Solução: a potência (kW) da turbina é dada pela multiplicação do fluxo de massa pela diferença de entalpias:
P34 =
(h3 − h4). Neste caso, h
3 = 2804,2 kJ/kg porque só há vapor saturado a 30 bar em 3. Substituindo valores,
304,2 = 1 (2804,2 − h4). Portanto,
h4 = 2500 kJ/kg
Em 4, há vapor e água a 1 bar. Usando os dados de entalpia nessa pressão e considerando x o título do vapor,
2700 x + 500 (1 − x) = 2500, Resolvendo,
x ≈ 0,9091 ou
90,91%
Ciclo com superaquecimento
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| Figura 02 |
Embora não seja exatamente um ciclo de Carnot, pode-se supor que a eficiência do ciclo da Figura 01 aumenta com o aumento da diferença de temperaturas (T
3 e T
4). Mas isso tem suas limitações. Se aumentada T
3, o ponto 4 se desloca para a esquerda, significando um aumento do teor de água na turbina. E, naturalmente, há limites práticos para reduzir a temperatura de condensação T
4.
Um meio mais viável de melhorar o ciclo é a instalação de um dispositivo para superaquecimento na saída da caldeira. Então, o diagrama de fluxo do tópico anterior é modificado para o diagrama da Figura 02 ao lado.
O diagrama temperatura x entropia é algo parecido com o da Figura 03 deste tópico.
Com vapor superaquecido na turbina, o ponto 4 é deslocado para a direita, aproximando-se da linha de equilíbrio vapor saturado / vapor superaquecido e reduzindo o teor de água no seu interior.
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| Figura 03 |
Pode-se estabelecer relações com entalpias nos trechos do ciclo.
Calor fornecido pela caldeira:
q23 = h3 − h2 #A.1#
Calor cedido pelo condensador:
q41 = h1 − h4 #A.2#
Trabalho fornecido pela turbina:
w34 = h3 − h4 #A.3#
Trabalho da bomba :
#A.4#
Eficiência do ciclo:
#B.1#
Exemplo 02: desprezando o trabalho da bomba e supondo isentrópica a expansão na turbina, calcular a eficiência de um ciclo Rankine em que o vapor é superaquecido a 400 °C com 40 bar e a pressão no condensador é 0,035 bar. São dados segundo tabelas de vapor:
• entropia específica do vapor superaquecido a 400°C e 40 bar: s = 6,77 kJ/kg
• entropia específica da água a 0,035 bar na temperatura de saturação: s
f = 0,39 kJ/kg
• entropia específica de vaporização da água a 0,035 bar na temperatura de saturação: s
fg = 8,13 kJ/kg
• entalpia específica do vapor superaquecido a 400°C e 40 bar: h = 3214 kJ/kg
• entalpia específica da água a 0,035 bar na temperatura de saturação: h
f = 112 kJ/kg
• entalpia específica de vaporização da água a 0,035 bar na temperatura de saturação: h
fg = 2438 kJ/kg
• temperatura de saturação da água a 0,035 bar: 26,7°C
Considerando o diagrama da Figura 03, os dados acima e a expansão na turbina isentrópica conforme hipótese,
s4 = s3 = 6,77 kJ/kg
Também
h3 = 3214 kJ/kg
Em 4 deve existir apenas vapor saturado. Assim, a entropia é dada por:
s4 = sf + x sfg. Onde x é o título do vapor. Substituindo valores,
6,77 = 0,39 + x 8,13. Resolvendo,
x ≈ 0,785. Para a entalpia,
h4 = hf + x hfg = 112 + 0,785 2438 ≈ 2026 kJ/kg
Na saída do condensador (1) só deve existir água. Assim, a entalpia é dada por:
h1 = hf = 112 kJ/kg
Desprezando o trabalho da bomba segundo hipótese,
h2 ≈ h1 = 112 kJ/kg
Calculando a eficiência conforme #B.1#,
η = [ (3214 − 2026) + (112 − 112) ] / (3214 − 112) ≈ 0,38
Determinando a eficiência de um ciclo ideal de Carnot que trabalhe entre as temperaturas do vapor superaquecido e a de condensação (#A.1# do tópico anterior),
η ≈ 1 − (26,7 + 273) / (400 + 273) ≈ 0,55
Esse resultado está de acordo com os aspectos já vistos em página anterior, isto é, a máxima eficiência possível de uma máquina térmica que trabalhe entre duas determinadas temperaturas é dada pelo ciclo ideal de Carnot.
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Última revisão ou atualização: Set/2008