Introdução
| Topo pág | Fim pág |
A cobrança de juros não é prática exclusiva da era moderna. Há indícios históricos de que ocorria desde tempos remotos, na era pré-urbana, quando a atividade econômica era fundamentalmente agrícola. Exemplo: alguém, que por algum motivo tinha um cavalo disponível, podia emprestá-lo a outro que precisava de um cavalo para ajudá-lo em sua colheita. Entretanto, quem emprestou não estava interessado apenas em receber o cavalo de volta após algum tempo. Desejava também uma parte dos grãos que o cavalo contribuiu para produzir, ou seja, era a cobrança de juro sobre o empréstimo do cavalo.
Com o advento da moeda e, mais tarde, dos intermediários financeiros (bancos), as coisas se sofisticaram. Mas o conceito fundamental continua tão simples quanto essa história do cavalo. Nesta série de páginas são apresentadas algumas informações básicas sobre a matéria.
Conceitos básicos, juro simples
| Topo pág | Fim pág |
A forma mais elementar de uma operação de empréstimo financeiro é graficamente representada na Figura 01: uma pessoa recebe do credor um valor C e, depois de um período de tempo T, paga ao credor um valor M, correspondente ao valor C acrescido dos juros.
C é denominado capital, valor atual ou valor presente.
M é denominado montante ou valor no horizonte.
|
| Figura 01 |
A
taxa de juro i é a proporção de C correspondente ao acréscimo. Assim,
M = C + C i = C (1 + i) #A.1#.
É praxe a indicação dos juros em termos percentuais. Portanto,
p = 100 i ou
i = p / 100 #A.2#, onde p é o valor do juro em percentual. E a fórmula anterior pode ser escrita:
M = C (1 + p/100) #A.3#.
|
| Figura 02 |
Se i é a taxa para um período de referência T, a taxa i
t para um período diferente t é, no critério dos juros simples, dada pela proporção aritmética:
it = i t / T #B.1#.
De outra forma, pode-se dizer que, se i é a taxa de juro simples para um período T, a taxa i
n para n períodos T é dada pelo produto:
in = n i #B.2# (equivale à substituição
t = n T na fórmula anterior).
Na aplicação dos juros simples, as taxas são, portanto, proporcionais. Se i é a taxa para um período, a relação #A.1# para n períodos é assim escrita:
Mn = C (1 + n i) #B.3#. Onde M
n é o montante após n períodos.
Exemplo: uma pessoa tomou R$ 1.000,00 emprestados para pagar em seis meses com juros simples de 2% ao mês. Determinar o valor a ser pago.
A taxa decimal é i = 2/100 = 0,02. Portanto, M
6 = 1000 (1 + 6 × 0,02) = R$ 1.120,00.
Na praxe comercial, o período-base é, em geral, o ano. Exemplo: juros de 0,12 ou 12% ao ano. São também comuns as seguintes definições para períodos fracionários:
•
Juro exato: usa a proporção correspondente aos dias do ano, i
t = i t / 365.
•
Juro comercial: considera o ano com 360 dias, i
t = i t / 360, e o período t deve ser dado em múltiplos de 30 dias (meses).
•
Juro ordinário: mesmo critério do comercial, i
t = i t / 360, mas o período t pode ser dado em qualquer número de dias.
Notar que os mesmos conceitos de juros são válidos para investimentos, isto é, C pode ser o valor aplicado e M o resgate do investimento com o acréscimo dos juros.
Exemplo: um capital de R$ 10.000,00 é aplicado por 135 dias em um fundo que rende 12% ao ano. Calcular o montante após esse período considerando juro simples ordinário.
A taxa anual é i = 12/100 = 0,12. Segundo definição anterior, i
145 = 0,12 145 / 360 ≈ 0,048. Aplicando #A.1#,
M = 10000 (1 + 0,048) = R$ 10.480,00.
Exemplo: se uma aplicação rende 12% ao ano, calcular o tempo necessário para dobrar o capital investido considerando juros simples.
Usa-se a relação #B.3#:
Mn = C (1 + n i). Neste caso, M
n = 2 C e i = 12/100 = 0,12. Substituindo,
2 C = C (1 + 0,12 n). Resolvendo, n ≈ 8,33 anos.
Juro composto
| Topo pág | Fim pág |
No conceito de juro composto, os juros dos períodos anteriores são acumulados para o período seguinte em forma de progressão geométrica.
No exemplo da Figura 01, cada retângulo numerado representa um período T, ao qual corresponde uma taxa de juro i.
|
| Figura 01 |
De acordo com a relação #A.1# do tópico anterior, o montante M
1 (final do período 1) correspondente ao capital C no início do mesmo período é dado por:
M
1 = C (1 + i). Esse valor é o capital para o início do segundo período. Assim,
M
2 = M
1 (1 + i) = C (1 + i) (1 + i) = C (1 + i)
2.
Para o último período, M
12 = C (1 + i)
12. Generalizando para n períodos,
Mn = C (1 + i)n #A.1#.
Considerando os n períodos equivalentes a um único período de taxa i
n, pode-se fazer a igualdade
M
n = C (1 + i)
n = C (1 + i
n). Simplificando,
in = (1 + i)n − 1 #B.1#.
Essa fórmula calcula, portanto, a taxa de juro composto i
n para n períodos de taxa de juro i. Ela pode ser rearranjada para indicar a taxa por período i em função da taxa dos n períodos i
n:
i = (1 + in)1/n − 1 #B.2#.
Supõe-se agora a relação #B.1# com k períodos,
ik = (1 + i)k − 1. Se é conhecida a taxa i
n para n períodos, substitui-se o valor de i dado por #B.2# nessa relação e o resultado é:
ik = (1 + in)k/n − 1 #B.3#. Ou seja, a taxa para k períodos é calculada em função da taxa para n períodos.
Em razão do fato de o capital de um período ser igual ao montante (capital mais juros) do período anterior, juros compostos são também denominados juros capitalizados ou juros sobre juros.
Na maioria dos países, inclusive o Brasil, as operações financeiras são quase sempre calculadas com juros compostos. É necessário, entretanto, prestar atenção a alguns conceitos de praxe para evitar equívocos:
•
Taxa nominal: é um valor apenas de referência, adotado para um determinado período (em geral, um ano), com menção dos períodos a capitalizar. Exemplo: 36% ao ano capitalizados mensalmente.
•
Taxa do período (proporcional): é a taxa nominal proporcional a cada período de capitalização. No exemplo anterior, o seu valor é 36% / 12 = 3% ao mês.
•
Taxa efetiva: é a taxa de juros compostos, calculada com a taxa por período, para o número de períodos desejados.
Exemplo: no caso de 36% ao ano capitalizados mensalmente, a taxa por período é p = 36% / 12 = 3% ao mês. Ou i = p/100 = 0,03. Para um ano (12 meses), a taxa efetiva é calculada segundo igualdade #B.1#:
i
12 = (1 + 0,03)
12 − 1 ≈ 0.426 ou 42,6%.
Na forma genérica, é comum o uso da notação i
(m), onde i é a taxa nominal para o ano e m é o número de capitalizações por ano (não é expoente). Assim, a taxa do período é i
(m)/m. Substituindo em #B.1# e reagrupando,
(1 + i(m)/m)m = i + 1 #C.1#. Onde i é a taxa anual efetiva equivalente a i
(m).
Tabela de juros compostos
| n |
1% |
2% |
3% |
4% |
5% |
6% |
7% |
8% |
9% |
10% |
12% |
15% |
18% |
| 1 |
1,010 |
1,020 |
1,030 |
1,040 |
1,050 |
1,060 |
1,070 |
1,080 |
1,090 |
1,100 |
1,120 |
1,150 |
1,180 |
| 2 |
1,020 |
1,040 |
1,061 |
1,082 |
1,103 |
1,124 |
1,145 |
1,166 |
1,188 |
1,210 |
1,254 |
1,323 |
1,392 |
| 3 |
1,030 |
1,061 |
1,093 |
1,125 |
1,158 |
1,191 |
1,225 |
1,260 |
1,295 |
1,331 |
1,405 |
1,521 |
1,643 |
| 4 |
1,041 |
1,082 |
1,126 |
1,170 |
1,216 |
1,262 |
1,311 |
1,360 |
1,412 |
1,464 |
1,574 |
1,749 |
1,939 |
| 5 |
1,051 |
1,104 |
1,159 |
1,217 |
1,276 |
1,338 |
1,403 |
1,469 |
1,539 |
1,611 |
1,762 |
2,011 |
2,288 |
| 6 |
1,062 |
1,126 |
1,194 |
1,265 |
1,340 |
1,419 |
1,501 |
1,587 |
1,677 |
1,772 |
1,974 |
2,313 |
2,700 |
| 7 |
1,072 |
1,149 |
1,230 |
1,316 |
1,407 |
1,504 |
1,606 |
1,714 |
1,828 |
1,949 |
2,211 |
2,660 |
3,185 |
| 8 |
1,083 |
1,172 |
1,267 |
1,369 |
1,477 |
1,594 |
1,718 |
1,851 |
1,993 |
2,144 |
2,476 |
3,059 |
3,759 |
| 9 |
1,094 |
1,195 |
1,305 |
1,423 |
1,551 |
1,689 |
1,838 |
1,999 |
2,172 |
2,358 |
2,773 |
3,518 |
4,435 |
| 10 |
1,105 |
1,219 |
1,344 |
1,480 |
1,629 |
1,791 |
1,967 |
2,159 |
2,367 |
2,594 |
3,106 |
4,046 |
5,234 |
| 11 |
1,116 |
1,243 |
1,384 |
1,539 |
1,710 |
1,898 |
2,105 |
2,332 |
2,580 |
2,853 |
3,479 |
4,652 |
6,176 |
| 12 |
1,127 |
1,268 |
1,426 |
1,601 |
1,796 |
2,012 |
2,252 |
2,518 |
2,813 |
3,138 |
3,896 |
5,350 |
7,288 |
| 13 |
1,138 |
1,294 |
1,469 |
1,665 |
1,886 |
2,133 |
2,410 |
2,720 |
3,066 |
3,452 |
4,363 |
6,153 |
8,599 |
| 14 |
1,149 |
1,319 |
1,513 |
1,732 |
1,980 |
2,261 |
2,579 |
2,937 |
3,342 |
3,797 |
4,887 |
7,076 |
10,147 |
| 15 |
1,161 |
1,346 |
1,558 |
1,801 |
2,079 |
2,397 |
2,759 |
3,172 |
3,642 |
4,177 |
5,474 |
8,137 |
11,974 |
| 16 |
1,173 |
1,373 |
1,605 |
1,873 |
2,183 |
2,540 |
2,952 |
3,426 |
3,970 |
4,595 |
6,130 |
9,358 |
14,129 |
| 17 |
1,184 |
1,400 |
1,653 |
1,948 |
2,292 |
2,693 |
3,159 |
3,700 |
4,328 |
5,054 |
6,866 |
10,761 |
16,672 |
| 18 |
1,196 |
1,428 |
1,702 |
2,026 |
2,407 |
2,854 |
3,380 |
3,996 |
4,717 |
5,560 |
7,690 |
12,375 |
19,673 |
A tabela acima dá os resultados de
(1 + i)n, onde
i = p/100, para diversos valores de p e n. Naturalmente, ela é desnecessária diante de calculadoras e programas como planilhas de cálculo. Mas em provas, o seu uso pode ser solicitado.
|
| Figura 02 |
Comparação juros simples e compostos
O gráfico da Figura 02 faz a comparação do montante M de um capital C = R$ 100,00 em relação ao período em meses, para juros simples e compostos de i = 0,01 (ou 1%) por mês.
De acordo com fórmulas já vistas,
• Juros simples: M = 100 (1 + 0,01 n).
• Juros compostos: M = 100 (1 + 0,01)
n.
Essas fórmulas permitem deduzir (e o gráfico demonstra) que, para a mesma taxa por período, juros compostos produzem resultados mais elevados por serem progressões geométricas.
Exemplo (fonte: CFC 1º sem. 2003): numa aplicação, sob o regime de capitalização composta, deseja-se dobrar os juros. Considere o tempo de aplicação maior do que 1 (um). O que deverá ser feito é:
a) Dobrar a taxa de juros.
b) Dobrar o capital aplicado.
c) Dobrar o tempo de aplicação.
d) Quadruplicar o tempo de aplicação.
Solução: supõe-se uma aplicação simples com um investimento único e um resgate único depois de n períodos com juros i por período. É usada a relação entre valor atual e valor no horizonte conforme #A.1#:
M = C (1 + i)n. Os juros que se deseja dobrar são a diferença
M − C = C (1 + i)n − C = C [(1 + i)n − 1].
Entre as alternativas apresentadas, a única que dobra esse valor é o dobro do capital aplicado (2C). As demais afetam a expressão exponencial (1 + i)
n, que não resulta no dobro. Resposta (b).
Topo |
Índice do grupo |
Página anterior |
Próxima página |
Última revisão ou atualização: Fev/2008