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Fluidos VI-10: Escoamento em condutos



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Equações básicas para escoamento ideal e escoamento real

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Em páginas anteriores foi visto que a equação de Bernoulli é o princípio da conservação da energia aplicado a escoamentos unidirecionais em regime estacionário de fluidos. Considera-se inicialmente um fluido ideal, isto é, um fluido que escoa sem perdas por atrito com as paredes do conduto. Seja m uma porção de massa de um fluido ideal em um escoamento. As três parcelas de energia do fluido são:
Energia potencial

m g z  #A.1#. Onde g é a aceleração da gravidade e z é a altura em relação a um plano de referência (é comum o símbolo "h" no lugar de "z").

Energia da pressão

p V  #A.2#. Onde p é a pressão do fluido e V é o volume ocupado pela massa m. Tem relação com a entalpia termodinâmica da massa do fluido.

Energia cinética

(1/2) m c2  #A.2#. Onde c é a velocidade do escoamento.

Portanto, a soma dessas parcelas deve ser constante para conservar a energia. No caso de escoamentos, é mais conveniente o uso da energia específica, isto é, energia por unidade de massa. Dividindo as parcelas por m e lembrando que

V  =  1   (onde ρ é a massa específica do fluido),
m ρ

g z +  p  +  (1/2) c2 = constante  #B.1#.
ρ

Para fluidos incompressíveis, ρ constante. Multiplicando todas as parcelas por ρ e considerando dois pontos 1 e 2, obtém-se a formulação usual da equação de Bernoulli em grandezas de pressão para fluido incompressível:

ρ g z1 + p1 + (1/2) ρ c12 = ρ g z2 + p2 + (1/2) ρ c22  #C.1#.

Se divididas todas as parcelas por ρg, o resultado é a mesma equação em termos de comprimentos (ou alturas):

z1  +  p1  + (1/2)  c12  =  z2  +  p2  + (1/2)  c22   #C.2#.
ρ g g ρ g g


De acordo com o princípio da conservação da massa, a equação da continuidade entre dois pontos 1 e 2 do escoamento em regime estacionário é:

Qm = ρ1 S1 c1 = ρ2 S2 c2  #D.1#.

Onde Qm é vazão de massa, S é a área da seção transversal e os demais símbolos são massa específica e velocidade conforme já visto.

Se o fluido é incompressível, ρ é constante e pode-se dividir tudo por esse valor:

Q = S1 c1 = S2 c2  #D.2#.

Onde Q é a vazão volumétrica.


No caso de fluidos reais, o trabalho de atrito provoca uma perda de pressão do fluido. Assim, pode-se escrever a equação anterior #C.1# na forma:

ρ g z1 + p1 + (1/2) ρ c12 = ρ g z2 + p2 + (1/2) ρ c22 + Δp  #E.1#.

Onde Δp é a perda de pressão por atrito entre os pontos 1 e 2.


A equação de Bernoulli e a equação da continuidade permitem resolver a maioria dos problemas práticos de escoamentos em condutos (tubulações, dutos e similares). Algumas aproximações práticas são usadas para facilitar os cálculos:

• Líquidos são praticamente incompressíveis e, portanto, a suposição é quase perfeita. Para alguns escoamentos de gases com pequenas variações de pressão como sistemas de ventilação, a incompressibilidade pode ser admitida sem grandes erros nos resultados.

• Reservatórios têm em geral seções transversais muito maiores que as seções das tubulações. Portanto, a superfície de um reservatório de líquido pode ser considerada de velocidade nula.

• Saídas livres para o ambiente podem ser consideradas de pressão igual à da atmosfera. É comum o uso de pressão relativa (diferença com a pressão atmosférica) e, neste caso, pode-se dizer que saída livre tem pressão nula.



Exemplos para escoamento ideal

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Os casos deste tópico são supostamente fluxos ideais. Não são consideradas, portanto, perdas de pressão por atrito nas tubulações e acessórios como conexões e outros.


Exemplo 01: a Figura 01 abaixo representa o corte transversal de um esguicho de estrangulamento simples. Supondo que a saída (2) tem área de 200 mm2 e que a entrada (1) tem área de 600 mm2 e recebe água a 25ºC e pressão 36 kPa relativos, calcular a vazão correspondente a essa situação.

Exemplo de escoamento ideal estrangulado
Figura 01
Usa-se a igualdade #C.1# do tópico Equações básicas para escoamento ideal e escoamento real:

p1 + (1/2) ρ c12 = p2 + (1/2) ρ c22.

Os termos ρ g z1 e ρ g z2 são cancelados porque os pontos 1 e 2 estão na mesma altura física.

São dados:

S1 = 600 10−6 m2
S2 = 200 10−6 m2
p1 = 36000 Pa (relativo)
p2 = 0 (relativo) porque é saída livre para o ambiente conforme já visto em tópico anterior.
A massa específica da água a 25ºC é considerada ρ ≈ 1000 kg/m3.

Então, 36000 + (1/2) 1000 c12 = 0 + (1/2) 1000 c22.

Segundo a equação da continuidade (#D.2# do tópico Equações básicas para escoamento ideal e escoamento real),

Q = S1 c1 = S2 c2 = 600 10−6 c1 = 200 10−6 c2. Isolando c2 (c2 = 3 c1) e substituindo na anterior,

36000 + (1/2) 1000 c12 = 0 + (1/2) 1000 9 c12
36000 + 500 c12 = 500 9 c12
36000 = 4000 c12

Portanto c1 = 3 m/s.

E a vazão é dada por Q = S1 c1 = 600 10−6 3 = 1,8 10−3 m3/s = 6,48 m3/h.


Exemplo de escoamento em saída de reservatório
Figura 02
Exemplo 02: na Figura 02, água fria de um reservatório escoa livremente através de um tubo horizontal de diâmetro interno 50 mm com um registro na extremidade.

Determinar a pressão no ponto 2 anterior ao registro, supondo que ele é ajustado para obter vazão de 72 m3/h e a superfície do reservatório está a 15 m acima do tubo.

Considerando o tubo como referência de altura, z1 = 15 m e z2 = 0.

A pressão relativa em 1 é nula (p1 = 0) e a velocidade também é (c1 = 0) porque é superfície de reservatório conforme já visto.

A velocidade no ponto 2 pode ser determinada pela equação da continuidade Q = S2 c2.

Massa específica da água considerada ρ = 1000 kg/m3.
Aceleração da gravidade g = 9,81 m/s2.

72 / 3600 = [ π (50 10−3)2 / 4 ] c2. Resolvendo, c2 ≈ 10,2 m/s.

Aplicando agora a equação de Bernoulli (#C.1# do tópico Equações básicas para escoamento ideal e escoamento real),

1000 9,81 15 + 0 + 0 = 0 + p2 + (1/2) 1000 (10,2)2. Portanto,

p2 ≈ 1000 (9,81 15 − 0,5 104) ≈ 95,2 kPa (relativo).

Em alguns casos práticos, é comum especificar pressão em termos de uma altura h de coluna de líquido equivalente. Pode-se, portanto, fazer:

ρ g h = p2 . Substituindo, 1000 9,81 h = 95,2 1000. Resolvendo, h ≈ 9,7 m.


Exemplo de escoamento de bomba para reservatório elevado
Figura 03
Exemplo 03: no diagrama da Figura 03, água fria de massa específica 1000 kg/m3 é bombeada para um reservatório elevado através de uma tubulação de diâmetro 30 mm. Determinar a pressão no ponto 1 (saída da bomba) supondo que a vazão é 5 m3/h e o nível do reservatório (ponto 2) está a 25 m acima da saída da bomba.

Usa-se a equação da continuidade para determinar a velocidade do escoamento no ponto 1.

Q = S1 c1 . Substituindo, 5 / 3600 = [ π (30 10−3)2 / 4 ] c1 . Resolvendo, c1 ≈ 1,965 m/s.

Para aplicação da equação de Bernoulli, considera-se a referência de altura em 1. Portanto,

z1 = 0
z2 = 25 m.

Pressão relativa em 2 é nula p2 = 0 e velocidade também c2 = 0.
Aceleração da gravidade g = 9,81 m/s2.

0 + p1 + (1/2) 1000 1,9652 = 1000 9,81 25 + 0 + 0 . Resolvendo, p1 ≈ 244 kPa (relativo).


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