Introdução
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Turbina hidráulica é o nome prático para máquinas que convertem a energia de um fluxo de água em energia mecânica dada pela rotação de um eixo. São quase sempre empregadas na geração de eletricidade. Podem ser classificadas em dois grupos básicos:
- De impulso ou ação
- Em condições ideais, há apenas mudança da direção do fluxo ao passar pelo rotor da turbina, sem variação de pressão. Portanto, a magnitude da velocidade do fluxo é constante.
- De reação
- O fluxo sofre variação de velocidade ao passar pelo rotor da turbina.
Os próximos ítens dão definições de alguns parâmetros, relativos a potências e eficiências, de uso comum no estudo dessas máquinas.
- Potência hidráulica
- É a potência suprida pelo fluxo. Pode ser calculada por:
PH = Δp Q #A.1#
Onde Δp é a variação da pressão total do fluxo entre a entrada e a saída e Q é a vazão volumétrica.
Em termos de altura, consideram-se:
Δp = ρ g ΔZ
= Q ρ
Assim, PH =
g ΔZ #A.2#
(
é fluxo de massa, g é aceleração da gravidade, ΔZ é diferença de altura total, ρ é massa específica).
- Potência líquida PL
- É a potência produzida pela força do fluxo atuando sobre o rotor. O cálculo depende do tipo de turbina. Em razão das perdas por atrito, o seu valor não é totalmente transformado em potência útil no eixo.
- Potência de eixo
- É a potência de saída no eixo da turbina. A relação com a velocidade angular (ω) e o torque T é dada pela fórmula clássica:
PE = ω T #B.1#
- Eficiência hidráulica
- É a taxa de conversão da potência hidráulica em potência líquida:
ηH = PL / PH #C.1#
- Eficiência mecânica
- Indica a proporção da potência líquida convertida em potência de eixo:
ηM = PE / PL #C.2#
- Eficiência total
- Relaciona a potência de eixo com a potência hidráulica:
ηT = PE / PH #C.3#
Princípios da turbina Pelton
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Inventada pelo americano Lester Allan Pelton na década de 1870, é uma típica turbina de impulso. A Figura 01 abaixo contém partes da imagem de domínio público da ilustração da patente original.
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| Figura 01 |
A operação é simples: um rotor em forma de anel é dotado de conchas, que são arrastadas sob ação de um fluxo tangencial de água, proporcionado por um bocal injetor. O injetor é normalmente dotado de uma agulha para regulagem. Turbinas práticas podem ter mais de um injetor.
O formato das conchas desvia o fluxo para uma direção quase oposta à direção original, resultando em uma variação de momento linear e, por conseqüência, em uma força tangencial que aciona o rotor.
As conchas têm cavidades duplas para distribuir igualmente o fluxo para cada lado, de modo que os esforços axiais se anulam.
A própria forma construtiva permite deduzir que é uma turbina adequada para altas pressões de água e vazões relativamente baixas. É considerada uma das mais eficientes.
A Figura 02 dá o esquema básico de operação da turbina Pelton: água sai de um bocal injetor com velocidade c
1 e atínge uma concha, que, por sua vez, tem uma velocidade c
c. Desde que a concha tem dimensões pequenas em relação ao rotor, essa velocidade pode ser considerada constante em toda a concha. Usando a relação básica do movimento circular uniforme,
cc = ω R #A.1#
Onde ω é a velocidade angular do rotor.
Observar que, teoricamente, toda a queda de pressão ocorre no injetor e a operação ocorre apenas pelo desvio da direção do fluxo, o que caracteriza um tipo de puro impulso.
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| Figura 02 |
Em páginas anteriores, foi visto que fluxo livre pode ser considerado com pressão relativa nula. Usando a equação de Bernoulli e um coeficiente de perda,
c1 = Kf √(2 p / ρ) #B.1#. Onde,
c
1: velocidade da água na saída do injetor.
K
f: coeficiente para perda por atrito no injetor.
p: pressão da água na entrada do injetor.
ρ: massa específica da água.
Com a equação da continuidade dos fluidos, a vazão de massa é
= Kc ρ S c1 #B.2#. Onde,
K
c: coeficiente de contração do jato na saída do injetor.
S: área da seção transversal na saída do injetor.
Substituindo o valor da velocidade dado em #B.1#, a vazão de massa é
= Kd S √(2 p ρ) #B.3#. Onde,
Kd = Kf Kc = coeficiente de descarga.
Em cálculos com água, é comum a referência da pressão em termos de altura H. Assim, das equações anteriores, a pressão pode ser calculada por:
p = ρ g H #B.4#, onde g é aceleração da gravidade.
Conforme já dito, as conchas têm cavidade dupla para anular os esforços axiais. Portanto, a análise de velocidades conforme Figura 03 pode ser feita para apenas um lado da concha porque o outro é simétrico.
Se o jato com velocidade c
1 alcança a concha cuja velocidade é c
c conforme (a) da mesma figura, tem-se a velocidade c
1c do jato em relação à concha indicada vetorialmente em (b) da figura.
Para o resultado final, precisa-se apenas dos componentes x (c
1x no caso de c
1) das velocidades porque no sentido y (axial neste caso) os momentos se anulam.
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| Figura 03 |
Em termos vetoriais, ocorre no ponto 1:
c1 = cc + c1c #C.1#
No ponto 2, a água sai da concha com uma velocidade c
2c relativa à mesma. Essa velocidade faz um ângulo φ com a horizontal e, se desconsiderado o atrito, deve ter módulo igual à velocidade relativa de entrada c
1c. Na prática deve existir um coeficiente de perda por atrito na concha K
fc. Assim,
c2c = Kfc c1c #D.1#
A relação vetorial das velocidades em 2 é similar à do ponto 1:
c2 = cc + c2c #D.2#, onde c
2 é a velocidade absoluta de saída do jato. Nesse ponto os vetores não estão alinhados e o resultado gráfico pode ser visto em (c) da Figura 03.
Também em (c) da figura, nota-se que a diferença final de velocidades ao longo de x é
Δcx = c1x − c2x = c1c − c2c cos φ
Substituindo c
2c pelo valor em #D.1# e c
1c pelo valor retirado de #C.1#, chega-se ao resultado
Δcx = (c1 − cc) (1 − Kfc cos φ) #E.1#
Então, o produto dessa variação de velocidade pela vazão de massa dá a força atuante na concha. E o produto dessa força pela velocidade tangencial da concha c
c dá a potência líquida da máquina:
PL =
cc (c1 − cc) (1 − Kfc cos φ) #F.1#
Repetem-se a seguir as descrições dos parâmetros.
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| Figura 04 |
P
L potência líquida.

vazão de massa da água.
c
c velocidade tangencial da concha (ver #A.1#).
c
1 velocidade do jato na saída do injetor (ver #B.1#).
K
fc coeficiente de perda por atrito na concha.
φ ângulo de saída do jato da concha.
Mantidos os demais parâmetros constantes, analisa-se a variação da potência P
L com a velocidade tangencial da concha c
c. Conforme igualdade anterior (#F.1#) é claramente uma função do segundo grau e a curva tem forma de parábola como pode ser vista na Figura 04.
Notar a coerência com a prática: se o rotor não gira (c
c = 0), a potência é nula. Se a velocidade da concha é maior ou igual à velocidade do jato (c
1), não há impacto e a potência é também nula. A simetria permite deduzir que a potência máxima ocorre com
cc = c1 / 2 #G.1#
Outra confirmação prática é dada pelo termo (1 − K
fc cos φ) da mesma igualdade (#F.1#): supondo por simplicidade K
fc = 1, ele tem seu valor máximo (= 2) se φ = 180º, ou seja, a potência é máxima se o jato é desvido na direção oposta (inviável na prática). Se φ = 0º (significando uma concha plana, paralela ao fluxo), não há desvio e a potência é nula.
Exemplo 01: uma turbina Pelton opera com injetor de diametro 30 mm sob uma pressão de 180 metros de água. São dados: diâmetro do rotor 1,7 m | eficiência mecânica 87% | coeficiente de fricção do injetor 0,995 | coeficiente de descarga do injetor 0,99 | coeficiente de fricção das conchas 0,98 | ângulo de saída do jato da concha 165º. Considerando esses valores (também massa específica da água 1000 kg/m³ e aceleração da gravidade 9,81 m/s²) e operação com máxima potência, determinar os demais parâmetros segundo igualdades deste tópico e do anterior.
ρ = 1000 kg/m
3, g = 9,81 m/s
2 e altura H = 180 m. Segundo #B.4#, pressão no injetor
p = ρ g H = 1000 9,81 180 = 1765800 Pa.
O coeficiente de atrito no injetor é K
f = 0,995. Conforme #B.1#, velocidade na saída do injetor
c
1 = K
f √(2 p / ρ) = 0,995 √(2 1765800 / 1000) ≈ 59,13 m/s.
Diâmetro do injetor D = 30 mm ou 0,03 m. Portanto, área S = π 0,03
2 / 4 ≈ 0,00071 m
2. O coeficiente de descarga é K
d = 0,99. Segundo #B.3#, vazão de massa

= K
d S √(2 p ρ) = 0,99 0,00071 √(2 1765800 1000) ≈ 41,77 kg/s.
Se opera na potência máxima, a velocidade tangencial das conchas segundo #G.1# é c
c = c
1 / 2 = 59,13 / 2 ≈ 29,57 m/s. O coeficiente de fricção nas conchas é K
fc = 0,98 e o ângulo de saída cos φ = cos 165 ≈ − 0,966. Conforme #F.1#, a potência líquida é
P
L =

c
c (c
1 − c
c) (1 − K
fc cos φ) = 41,77 × 29,57 × (59,13 − 29,57) × (1 + 0,98 × 0,966) ≈ 71,05 kW.
O raio do rotor é R = 1,7 / 2 = 0,85 m. Segundo #A.1#, c
c = ω R. Portanto, velocidade angular do rotor
ω = 29,57 / 0,85 ≈ 34,79 rad/s ou 332,2 rpm.
A potência hidráulica é dada por #A.2# do tópico anterior (com H = ΔZ):
P
H =

g ΔZ = 41,77 × 9,81 × 180 ≈ 73,76 kW.
A eficiência hidráulica é conforme #C.1# do tópico anterior:
η
H = P
L / P
H = 71,05 / 73,76 ≈ 0,972.
Segundo #C.2# do tópico anterior, eficiência mecânica η
M = P
E / P
L. Portanto 0,87 = P
E / 71,05 ou potência de eixo
P
E ≈ 61,81 kW.
E a eficiência global é dada por #C.3# do mesmo tópico:
η
T = P
E / P
H = 61,81 / 73,76 ≈ 0,838.
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Última revisão ou atualização: Jul/2008